De dentro para fora!

Sex, 06 de Outubro de 2006 21:27 Zuleide
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O Escoar da Esperança

 

Salve! ao nosso auri-verde pendão da esperança !

Homens formigas povoando os leitos dos rios, invisíveis em sua cor de barro em busca de nada, em busca do ouro que cai em cachos do pendão de nossa esperança.

Homens anões ensurdecidos pelos serrotes que tombam sem dó os gigantes vivos que compõem nossas matas, tirando do futuro sua possibilidade de existência.

Homens parasitas que habitam e se estapeiam no congresso enquanto vampirizam nosso povo indolente, mãos de serrote, cor de barro.

 

Antigas máquinas a vapor, hoje monstros da tecnologia bebem nossas águas, jogando em nossas fontes seu vômito envenenado, matando nossos homens indolentes, mãos de serrote, cor de barro.

Homens desfigurados, homens transfigurados, homens mendicantes consumidos por drogas de chumbo, drogas de querosene; drogas que embaçam sua mente, matam seu corpo, destroem seu espírito e mantém no congresso homens parasitas que sugam seu cerne e se fazem cegos enquanto tropeçam nos homens indolentes, mãos de serrote, cor de barro, farrapos das ruas.

Homens dos Palácios - palácio da Alvorada, palácio da Justiça, palácio do Catete. Palácios sem rei, palácios sem valsa, palácios sem príncipes e sem princesas, palácios sem tradição, palácios sem história.

Palácios vazios de homens, vazios de solidariedade, vazios de justiça, vazios de humanidade, verdadeiras casas de cupins. Cupins de todos os tipos: brancos, pardos e negros corroendo na calada da noite a esperança de um povo indolente, mãos de serrote, cor de barro, espectros esfarrapados.

Homens vampiros que trabalham na surdina enquanto todos dormem e fazem projetos de como acordar mais alienados, mais perplexos diante do neon de tantas novidades que os desumanizados constroem nas madrugadas regadas a sangue daqueles que dormem o sono dos que nada vêem, nada ouvem, nada fazem.

Acordem os homens, acordem as comunidades, acordem as massas, acordemos todos !

Salvemos nosso lindo auri-verde pendão da esperança de nós mesmos!


 

 

Olhar Cruzado

As relações humanas, tema cunhado pelos mais brilhantes pensadores, que teve seu significado devassado em suas profundezas, chegando ao máximo do aprofundamento onde o outro me constitui, perde em nossos tempos seu principal valor, aquilo que nos permite o descanso de sermos iguais.

Olhar o outro e ver a si mesmo para além das singularidades faz resplandecer a luminosidade da alma e traz a certeza de se habitar um mundo compartilhado.

Na modernidade a relação não é traduzida pela harmonia entre dois seres, mas sim por um deserto onde o olhar se perde no infinito da solidão de um mundo onde não há mais o meu igual.

Olhar nos olhos de outro ser não é mais estar olhando para si mesmo, numa compreensão profunda do que é ser humano, ser inteiro na generosidade, estar entregue ao partilhamento da vida.

Olhar nos olhos do outro é agora ver sua cor, sua avidez por novidades, ler neles a expressão de urgência dos novos tempos, que deixa ao relento a relação de reciprocidade, de afetividade e trilha um caminho rumo a uma aridez desértica.

Individualismo confundido com independência, arrogância com força, violência com coragem permeiam nossa construção presente.

Os valores se modificam ou se perdem na velocidade da corrida em busca do nada, na superficialidade das luzes de neon que traduzem a cegueira de olhos sem brilho que vagueiam e rodopiam como piões ensandecidos, que giram sem destino até cair sem vida.

Olhares cruzados, transpassados pela angústia, dilacerados pela solidão preenchem o vazio com música que não faz sonhar, arte que não representa o belo e dança que não é movimento.

As relações se perderam, foram arrastadas pela enxurrada de entes perdidos que se movem sem rumo, sem o outro, sem si mesmo.

Desfazem-se as relações.

Criam-se fantasmas.

 


A inocência da Alegria

 

Não é o amadurecimento que nos faz perder a alegria

É a perda da inocência

As crianças gargalham alegremente

Os jovens riem como as hienas – todos escancarando as bocas iguais

Os adultos escondem os dentes tristemente

Os velhos voltam a rir bobamente

 

Mas a alegria, esta só se mantém na inocência

Pode ser a da infância

Pode ser a da juventude

Pode ser a da maturidade

Pode ser a da velhice

Mas há que se conservar a inocência

Sem ela alegria não há

 

Alegria é se sentir liberto

Liberto dos papéis

Liberto das culpas

Liberto das crenças copiadas

Liberto dos afazeres sem sentido

Sutilmente Liberto

 

Liberdade é ser o que se é

O que se é - é o que se quer

O que se quer – é o que se sente

O que se sente – é o que brota

O broto é inocente

A inocência gargalha

O gargalhar dá voz a alegria - a alegria que se foi.

 

A inocência acabou

O gargalhar emudeceu

A alegria morreu.

 
Última atualização em Ter, 25 de Setembro de 2012 02:46